A RACIONALIDADE DA FÉ

08/08/2026 09:47

NVT Rm 1:17: As boas-novas revelam como opera a justiça de Deus, que, do começo ao fim, é algo que se dá pela fé. Como dizem as Escrituras: “O justo viverá pela fé”.

INTRODUÇÃO

"O que você já teve que acreditar para chegar até aqui?"

Pense comigo. Você está sentado nesta sala. Para chegar aqui hoje, você confiou em coisas que nunca viu com os próprios olhos:

  • Você confiou que a cadeira em que está sentado foi projetada por alguém que sabia o que estava fazendo. Você não calculou a carga.
  • Se veio de carro, confiou que os freios foram instalados corretamente. Você não verificou.
  • Se comeu algo hoje, confiou que aquilo não estava estragado. Não fez uma análise laboratorial.
  • Se já tomou um remédio, confiou nos estudos clínicos. Você não leu os documentos destes estudos clínicos.
  • Se acredita que o Brasil foi descoberto em 1500, confiou em historiadores. Você não estava lá.
  • Se você empreende, ou tem um emprego ou gerência algo, confiou no sistema; confiou que receberá algo em troca;
  • Se coloca seu dinheiro em um banco, também precisou confiar que seu valor não sumirá, e por ai vamos.

Ninguém vive sem fé.

A questão nunca é ter ou não ter fé. A questão é: no que ou em quem você deposita a sua confiança? E, mais importante: essa confiança é racional? Ela tem base?

O mais interessante é que na maioria dos casos você está confiando cegamente em coisas que nunca pode de fato examinar.

Agora, vamos olhar para a fé sob uma perspectiva do “dar crédito a Deus”?

a) O QUE A FÉ NÃO É:

- O maior obstáculo para um não crente considerar a fé cristã é a caricatura que ele carrega. Para muitos, fé é:

  • Acreditar em algo apesar da ausência de evidências
  • Um salto no escuro
  • Aceitar o absurdo sem questionar

A Bíblia, porém, nunca define fé assim. Jesus mesmo não pediu crença cega. Pelo contrário:

NVT Jo 10:37-38: 37 Não creiam em mim se não realizo as obras de meu Pai. 38 Mas, se as realizo, creiam na prova, que são as obras, mesmo que não creiam em mim. Então vocês saberão e entenderão que o Pai está em mim, e que eu estou no Pai”.

Jesus apela às evidências. Ele diz: "olhe para os dados e decida". Isso não é fé cega — é fé informada.

O escritor aos Hebreus define fé assim:

"Ora, a fé é a substância das coisas que se esperam, a prova das coisas que não se veem." (Hebreus 11:1)

O versículo funciona como uma definição programática para a galeria de heróis da fé que se segue.

É como se o autor dissesse: "Antes de mostrar quem viveu pela fé, deixe-me definir o que entendo por fé." Isto é:

"Não se trata de uma crença vaga ou sentimental. Fé é aquilo que dá solidez às nossas esperanças e demonstra a realidade do que não vemos — e agora vou provar isso com exemplos."

A palavra grega traduzida como "prova" é ἔλεγχος (elenchos) — um termo jurídico que significa demonstração convincente, evidência que convence um juiz num tribunal.

O autor está dizendo que fé tem base em evidências reais. Não é "achar", não é "esperar que seja verdade". É ter provas que convencem. E ai passa a demonstrar estas evidências, v. 2ss.

Já em 1 Coríntios 2:14, Paulo explica por que muitos rejeitam a fé:

"NVT 1Co 2:14: Mas o homem natural não aceita as verdades do Espírito de Deus. Elas lhe parecem loucura, e ele não consegue entendê-las, pois apenas quem é espiritual consegue avaliar corretamente o que diz o Espírito."

KJA 1Co 2:14: As pessoas que não têm o Espírito não aceitam as verdades que vêm do Espírito de Deus, pois lhes parecem absurdas; e não são capazes de compreendê-las, porquanto elas são discernidas espiritualmente.

O problema não é falta de inteligência — é falta de instrumento. Se você entrega um termômetro a um peixe, ele não vai entender temperatura — não porque temperatura não exista, mas porque ele não tem o instrumento para medi-la.

Paulo diz que há verdades espirituais que só o Espírito capacita o homem a discernir.

b) O QUE A FÉ É

A palavra grega para fé no Novo Testamento é πίστις (pistis).

Palavra

Significado

Ocorrências no NT

πίστις (pistis)

Fé, confiança, fidelidade

243x

πιστεύω (pisteuō)

Crer, confiar, dar crédito

241x

πιστός (pistos)

Fiel, confiável, digno de crédito

67x

ἀπιστία (apistia)

Incredulidade, falta de confiança

11x

ἄπιστος (apistos)

Incrédulo, não confiável

23x

O adjetivo πιστός (pistos) é especialmente interessante. Quando aplicado a pessoas, significa "confiável", "digno de fé". Quando Paulo diz que "Deus é pistos" (1Co 1:9, 10:13), ele está dizendo que Deus é digno de crédito — o que torna a fé racional.

Para nosso tema, no mundo grego antigo, pistis significava confiança baseada na credibilidade de alguém.

Não era "aceitar algo irracional". Era "dar crédito" — exatamente como você usa a palavra hoje:

  • "Eu dou crédito ao depoimento daquela testemunha."
  • "Aquele profissional merece crédito."

NVT Rm 10:17: 17 Portanto, a fé vem por ouvir, isto é, por ouvir as boas-novas a respeito de Cristo.

A fé vem pelo ouvir — ou seja, pelo recebimento de um testemunho. Você ouve algo, avalia a credibilidade da fonte e decide se dá crédito ou não.

Fé não é acreditar em algo que você não sabe. Fé é dar crédito a Alguém que é digno de crédito.

Quando um homem diz que tem fé em Deus, em maior ou menor grau ele está dizendo: examinei o caráter, a fidelidade, o testemunho histórico e as evidências, e concluí que Deus é digno de confiança. Portanto, deposito meu crédito nEle.

Isso não é irracional. É exatamente o que você faz quando contrata um profissional, casa-se com uma mulher ou segue a recomendação de um amigo de confiança.

c) EVIDÊNCIAS HISTÓRICAS

Aqui está um ponto crucial para todos nós: o cristianismo não é uma filosofia abstrata. Ele está ancorado em eventos históricos verificáveis, inclusive pela história e pela arqueologia, mas citaremos aqui alguns bíblicos.

Paulo escreve:

NVT 1Co 15:3-8: 3 Eu lhes transmiti o que era mais importante e o que também me foi transmitido: Cristo morreu por nossos pecados, como dizem as Escrituras. 4 Ele foi sepultado e ressuscitou no terceiro dia, como dizem as Escrituras. 5 Apareceu a Pedro e, mais tarde, aos Doze. 6 Depois disso, apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez, a maioria dos quais ainda está viva, embora alguns já tenham adormecido. 7 Mais tarde, apareceu a Tiago e, posteriormente, a todos os apóstolos. 8 Por último, apareceu também a mim, como se eu tivesse nascido fora de tempo.

Paulo não está dando uma opinião. Ele está listando testemunhas oculares.

Ele diz: "a maioria permanece até agora" — ou seja, essas pessoas ainda estavam vivas quando ele escreveu. Qualquer um podia ir conferir.

Historiadores, mesmo não cristãos, concordam com alguns fatos:

  1. Jesus existiu e foi crucificado por Pôncio Pilatos
  2. O túmulo foi encontrado vazio — até os oponentes de Jesus admitiam isso (Mateus 28:11-15)
  3. Os discípulos, que fugiram e se esconderam na hora da crucificação, subitamente passaram a pregar publicamente a ressurreição, sob ameaça de morte
  4. Paulo, um perseguidor implacável da igreja, tornou-se seu maior propagador após uma experiência que ele atribuiu ao Cristo ressurreto

Homens comuns — pescadores, cobradores de impostos — enfrentaram tortura e morte por essa mensagem. A pergunta honesta é: eles estavam mentindo ou estavam enganados?

Se estivessem mentindo, não morreriam por algo que sabiam ser falso. Se estivessem enganados, a história não se sustentaria — teria se desfeito na primeira perseguição.

A explicação mais simples: eles realmente viram o que disseram ter visto.

d) FÉ NO COTIDIANO — TODOS VIVEM POR FÉ

Este é o ponto de conexão mais direto com os não crentes. Todos nós exercemos fé todos os dias. A fé não é um fenômeno religioso — é um fenômeno humano universal.

Como já visto nos exemplo usados na introdução, precisamos da fé (comum, social) para a vida.

Em todos esses casos, você age com base em evidências parciais. Você nunca tem 100% de certeza absoluta. Mas você tem evidências suficientes para dar o passo de confiança.

A fé em Deus segue a mesma lógica. Ninguém está pedindo que você acredite sem evidências. O convite é: examine as evidências — a história, o testemunho, a transformação de vidas, a ordem do universo — e decida se Deus é digno de crédito.

3. CONCLUSÃO — UM CHAMADO À REFLEXÃO

Paulo nos desafia a nos posicionar quanto a nossa fé em Deus, ao nos dizer:

NVT Rm 1:17-22: 17 As boas-novas revelam como opera a justiça de Deus, que, do começo ao fim, é algo que se dá pela fé. Como dizem as Escrituras: “O justo viverá pela fé”. 18 Assim, Deus mostra do céu sua ira contra todos que são pecadores e perversos, que por sua maldade impedem que a verdade seja conhecida. 19 Sabem a verdade a respeito de Deus, pois ele a tornou evidente. 20 Por meio de tudo que ele fez desde a criação do mundo, podem perceber claramente seus atributos invisíveis: seu poder eterno e sua natureza divina. Portanto, não têm desculpa alguma. 21 Sim, eles conheciam algo sobre Deus, mas não o adoraram nem lhe agradeceram. Em vez disso, começaram a inventar ideias tolas e, com isso, sua mente ficou obscurecida e confusa. 22 Dizendo-se sábios, tornaram-se tolos.

Paulo diz que há evidências de Deus expostas na criação — tão claras que ninguém terá desculpa no dia do juízo. A ordem do universo, a consciência moral, o desejo de eternidade no coração humano — são dados que apontam para o Criador.

A fé bíblica não é um salto no escuro; não é um salto irracional. É um passo na direção da luz que já brilha. É a resposta inteligente de quem examinou as evidências, reconheceu a credibilidade da fonte e decidiu dar crédito, depositar confiança e manter fidelidade a Deus.

Que todos entendamos que ninguém precisa desligar seu cérebro para crer.

O contrário sim, com sua racionalidade pode decidir dar crédito a Deus.

O convite é que todos examinemos honestamente as evidências. A fé que o cristianismo propõe não é crer apesar da razão — é crer com a razão, usando as evidências que Deus já deixou disponíveis.