Chamado e preparação à luz da Bíblia - 1ª Parte

02/03/2012 16:22

 

A Igreja desde o seu início viu florescer um celeiro de diferentes vocações, respondendo sempre às necessidades missionárias e pastorais que iam surgindo. Ao lado dos doze apóstolos e dos discípulos de Jesus, vemos surgir os diáconos (At 6.1-7), os bispos, os evangelistas, os líderes (Ef 4.11).  Nas Cartas do apóstolo Paulo percebemos que nas comunidades existiam diversidades de dons e ministérios: ensino, serviço, colaboradores, profetas, etc. (Rm 12.6-8; 1Cor 12-14). Assim, o chamado não é igual para todos. Contudo, todos os salvos são chamados a se envolverem de modo frutífero (Jo 15.1).  Assim, há necessidade de todos buscarem o pleno conhecimento de Cristo (2Pe 1.2,3,8; 3.18).

Jesus afirmou: “Errais não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus” (Mt 22.29). Ninguém que se disponha a fazer algo quer ser mal sucedido, nem Deus que sejamos mal sucedidos (Tg 1.25). E, para errar menos nas tarefas que desempenham, estas pessoas precisam de preparo.

Uma definição bem objetiva quanto ao verbo “preparar” é colocar-se a disposição de ser utilizado.             Aqueles que desempenham funções e ministérios na Obra de Deus precisam entender que acima de tudo estão ali para servirem, e servirem bem (Jr 48.10). E como poderão ser úteis se não estiverem preparados para o desempenho de suas tarefas? (Ef 4.11-12).

Veja a vida de Moisés. Ele passou os primeiros 40 anos aprendendo a sabedoria dos egípcios. E Moisés foi instruído em toda a ciência dos egípcios e era poderoso em suas palavras e obras. E, quando completou a idade de quarenta anos, veio-lhe ao coração ir visitar seus irmãos, os filhos de Israel (Atos 7.22, 23). Moisés passou outros 40 anos aprendendo as lições de liderança e ministério. E apascentava Moisés o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote em Midiã; e levou o rebanho atrás do deserto e veio ao monte de Deus, a Horebe (Êx 3.1). E só então foi considerado apto para a tarefa. E, completados quarenta anos, apareceu-lhe o anjo do Senhor, no deserto do monte Sinai, numa chama de fogo de um sarçal. Então, Moisés, quando viu isto, se maravilhou da visão; e, aproximando-se para observar; foi-lhe dirigida a voz do Senhor (Atos 7.30,31). Durante os primeiros 40 anos, foi um general para o exército egípcio. Nos outros 40, foi um pastor de centenas de ovelhas. Por isso foi usado com aquela sabedoria.  Preparação, preparação, preparação.

Adiante, vemos a existência de uma escola dos profetas composta por "filhos" dos que exerciam o ofício (2Rs 2.3,5,15). É importante ressaltar que "filho",  neste contexto, significa "discípulo, aprendiz" (Pv 3.1,21; 2 Tm 2.1). Note que o texto sagrado revela a existência de uma organização de profetas bem estruturada, e Eliseu chegou a ser o mestre deles (2Rs 6.1-3). Isto para não nos aprofundarmos em um fato importante: uma criança judia, de sete anos, já conhecia o Pentateuco (Lc 2.46; 2Tm 3.15). O conhecimento fazia parte daquela cultura. Preparação, preparação, preparação.

Olhando para o Novo Testamento, notamos um apóstolo Paulo, fariseu e filho de um fariseu (Atos 23.6), que investiu anos preparando-se para destacar-se como um homem inteligente da sua geração. Ainda que também podia confiar na carne; se algum outro cuida que pode confiar na carne, ainda mais eu: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu, segundo o zelo, perseguidor da igreja; segundo a justiça que há na lei, irrepreensível (Fp 3.4-6).

 Ainda assim, não considerou esta preparação suficiente após a sua conversão. Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo (Fp 3.7). Para desenvolver a contento o ministério que lhe fora dado por Cristo (Gl 1.15), julgou necessário preparar-se por três anos (Gl 1.18). Na verdade, ele teve mais quatorze anos de preparação antes que seu ministério iniciasse (Gl 2.1), totalizando 17 anos de qualificação. Ainda assim, serviu primeiro como auxiliar na igreja de Antioquia. Preparação, preparação, preparação.

Preparação também fez parte da vida do Jovem Timóteo, aprendiz de Paulo, com quem teve significativa qualificação. Sobre ele, Paulo testemunha sobre sua qualificada formação inicial (2Tm 3.15). Preparação, preparação, preparação.

E nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, maior referencial para a Igreja, o que nos ensina sobre isto? Saberia ele o que estava fazendo? Ele iniciou o seu ministério aos trinta anos de idade (Lucas 3.23), e, certamente, utilizou este tempo em sua preparação. Afinal, como já mencionamos, era prática de todo Judeu estudar a Torá desde criança (2Tm 3.15). Isto é comprovado  pelo fato de Jesus ser visto, aos doze anos de idade, discutindo com os doutores da Lei (Lc 2.46), pela forma como aplicou as Escrituras Sagradas em seu confronto com Satanás (Lc 4.1-13), e por ter sido reconhecido mestre no início do seu ministério (Jo 1.38), inclusive por um líder dos Judeus (Jo 3.2). Os dias atuais reclamam para os nossos ministros jovens, no mínimo, uma preparação de qualidade.

Além disso, ele mesmo dedicou muito tempo com os seus apóstolos e discípulos para poder formá-los, afim de que estivessem capacitados para o anúncio do Reino.

Por que o próprio Jesus gastou três anos preparando os seus obreiros com um curso intensivo? Considerando três anos, noite e dia, qual a duração do curso? Qual a qualidade e didática do professor? Consideremos, em tese, oito horas diárias de estudos, o que era muito mais, já que em tudo Jesus ensinava, até mesmo quando caminhava (Mc 11.12-14).  Convertendo estas horas diárias em horas/aulas, teríamos aproximadamente 10 horas/aulas por dia, o que resultaria em uma carga horária no final dos três anos e meio de aproximadamente 13.000  horas aulas, equivalente à praticamente cinco cursos em nível de bacharelado (com duração de quatro anos) de nosso tempo. Considerando a grande capacidade do Mestre e o conteúdo ensinado, que não caberia em todos os livros daquele tempo (Jo 21.25), aquele curso seria superior a soma dos cursos: bacharelado (2.600 horas), Especialização (450 horas), Mestrado (660 horas) e Doutorado (960 horas).  E isto tudo, com o Mestre dos mestres, o melhor educador que já existiu. E mais: ele ordena que tudo o que os apóstolos receberam fosse ensinado aos outros (Mt 28.20), ou seja, inclusive aos que são discípulos hoje. Preparação, preparação, preparação.

 

Por Samuel Alves Silva